Wednesday, October 12, 2005

CASTELO X LOFT

"Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir
Se nós, nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir"


Adriana Calcanhoto pulou da case e foi direto para o play. A gente diz que perdeu o chão e que não encontra as palavras, ora mas que besteira imensa, você olha para baixo e percebe que o chão está ali no mesmo lugar onde sempre esteve e que as palavras continuam perdidas por aí nas mesas dos bares, nos sussuros dos amantes, nos pátios de colégios e nas prateleiras da livrarias. Naqueles segundos que poderiam ser confudidos com séculos facilmente, tudo faz sentindo, cada acorde triste foi composto para você, cada cena triste de filme vem ao seu encontro. A gente é capaz de dizer que viu imensas latas de tinta cinza pela cidade e que toda a população foi voluntária para descolorir as paredes do mundo.

A gente se sente ridículo. Os outros acham a gente ridículo mas só quem já passou por uma boa dor lombar ocasionada por dois pés de outra pessoa está entendendo o que essas palavrinhas tentam expressar. O telefone tocou nessa pré-noite de pós-feriado e a voz quase sufocada do outro lado tentava traduzir a dor que aquela alma que dias atrás tinha a mais louca alegria, no dia de hoje fazia da agonia a sua profissão.

Meus ouvidos estavam ali executando sua função de calmamente ouvir sílaba a sílaba para depois um outro orgão poder trabalhar dentro do seu caminho vital e poder balbuciar. Mas meu coração foi longe e não pegou atalhos, correu pelo campo da memória e cruzou avenidas do tempo, do choro, do abandono, do querer e não poder, do quase não sentir e em questão de segundos estava lá eu mais completa do que quando aquele celular tocou. Agradeci.

Não se pode ser completo quando não se sofreu por amor, ainda. Jamais reconheceria o valor das coisas mais importantes que a vida me deu de presente se não fosse as lágrimas que derramei, o desamor que sofri e o brilho no olhar que jurei ter sido o último. Começar de novo. Provavelmente a gente se pergunte com que pernas seguir, mas a resposta é a mais óbvia possível e você só pode ir em frente com as suas próprias pernas. Começar de novo e nesse recomeço é só contar consigo mesmo. Reerguer os castelos nem sempre é fácil mas a melhor maneira é construir um loft que só caiba você, pois quando você tem plena consciência do seu espaço até pensa em apertar para dividir com alguém.

2 Comments:

Anonymous Anonymous said...

por isso moro em loft. to aprendendo a viver comigo. risos. achei o texto lindo. um beijo. Paolla

1:00 PM  
Anonymous Anonymous said...

Sam, seu texto é lindo... Emocionante!
Vou acessar pelo menos 1 vez por semana, para consagragar essa minha grande amiga escritora.
Te adoro!!!
Beijos, Amanda

1:47 PM  

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