QUARTA-FEIRA DE CINZAS
Ele pode entender dos mundos complexos, dos cavalos de batalha e dos amores medievais. Abre a cortina de veludo da sala que não bate sol e encontra o cheiro entorpecente do passado não muito distante. Na cabeça dele tudo isso se funde e o questionamento começa ir além do sushi de ontem a noite. O cara só queria encontrar o rumo das rosas, aquele caminho perfumado e colorido dos filmes da sessão da tarde. Ele procura, procura e só encontra mais procura. Não consigo ajudá-lo a compreender porque não entendi a busca. E por essa e por muitas outras tenho chorado. Hoje choro com motivo, tendo dor...lá na alma. Ele e eu temos a cólica da saudade, a ânsia do desconforto, o vazio do apego e mesmo assim conseguimos olhar e deixar as coisas irem, como se em algum segundo entendessemos o ciclo. Dói.
A menina dos olhos castanhos, sim castanhos porque aqui os personagens são comuns, falou sobre um caminho. Lembro ainda dela ter dito sobre uma estrada onde se tem muitos atalhos e depende da nossa disposição para o desafio, seguir. Ele não sabe se quer. Eu penso em seguir única e exclusivamente por falta de plano B. Então ele, ela e eu, de uma forma diferente faremos a trajetória igual. Isso me conforta por segundos, milésimos de segundos, não mais que isso. As lágrimas rolam por falta de conseguir abrir o sorriso e mais um dia se passa. Ele queria ter mais fé. Eu queria ter mais força. Ele e eu queríamos ser mais livres. Ela é verdadeiramente livre mesmo sem força e sem fé, como nós. Sendo assim não só o caminho é igual, as pessoas no fundo também são bem parecidinhas, mas acordam em closets diferentes, por isso apresentam-se em outras fantasias. Assim podem fazer um grande Carnaval, mas sabe-se que a quarta-feira de cinzas é inevitável.
Ele toma sorvete e ela tem dor de garganta. Eu tenho dor de garganta e tomo sorvete mesmo assim, pois como ele sempre diz não sei me cuidar. Não é bem assim, apenas não quero me proteger do que quero sentir e isso acaba valendo para o picolé ou para os amores. Ok, também não me poupo das dores. Mas hoje a dor é diferente e essa sei que passa para dar lugar a uma saudade mais que sufocante, essa sem fim. Ele deixou o casaco cinza do medo lá na esquina e desde desse dia só se esconde das pessoas, das suas palavras vazias e dos seus sentimentos ocultos. Ele não me ajuda porque disse que tenho que saber elaborar. Ela elaborou um plano mas como o caminho é igual não quer dividir com a gente hoje, pois soprou que lá na frente vamos nos esbarrar. Ela quebrou todas as regras. Ele seguiu todas. Agora eu... Sigo sem entender, embora com mais fé, menos força e sabe-se lá, livre.
