Monday, October 31, 2005

ACONTECIMENTOS

Completamente estranha é assim que estou me sentindo. O final de semana entreguei para a Monique Gardenberg dirigir as minhas noites de sexta-feira até domingo. Escutei também Vanessa da Mata, Maria Bethânia e Stereo Total e consegui chorar e rir em frações de segundos. Relaxei muito no shiatsu e em seguida briguei por causa de TPM. Passei o dia inteiro sem comer nada e na madrugada me entupi no Mestiço. Acendi velas na igreja e também fui conhecer o novo endereço do templo de umbanda. Fui criança demais e em seguida precisei ser a mais madura dos seres.

1,2,3...preciso realmente realinhar meus chakras. Preciso fazer ayuvérdica. Preciso gritar e poder fechar a janela para não me chamarem de louca. Preciso ser louca. Preciso procurar uma boa cartomante. Preciso mais ainda que ela diga se vou casar aos vinte e cinco com lua de mel nos Alpes. Preciso ainda que ela diga se vou morrer sendo publicitária ou se vai ser mais divertido ter uma creperia. Preciso saber se pego ou largo de vez. Preciso. Preciso. Preciso virar a mesa e no fim virar e dizer : Valeu a pena ter quebrado tudo, né ? Mas será ? Já joguei tudo tantas vezes... E sempre valeu a pena.

"Eu espero Acontecimentos. Só que quando anoitece. É festa no outro apartamento"

Ontem a noite disse que tinha escolhido a manhã do dia 31 de outubro para acordar diferente. Ensaiei fazer um cabelo diferente na frente do espelho. Até pensei em escolher uma roupa diferente também. Deu até vontade de roubar um carro na garagem do prédio para andar de carro também diferente. Fiz um caminho diferente para chegar na agência e peguei um mega trânsito diferente. Queria muito que tivesse uma garagem diferente para poder entrar por uma porta diferente e subir por um elevador tão diferente também. Queria arrumar minha mesa com uma bagunça diferente. Mas a manhã quase acabou e será que fiz algo diferente, já ? Ah, sim... um briefing bem diferente sem por favor nem obrigada.

Se alguém souber de algum acontecimento para a minha pessoa saibam que meu celular continua o mesmo, ok ?

Thursday, October 27, 2005

O SHOW TEM QUE CONTINUAR

Em meio a confissões sobre "crescer não está sendo tão fácil assim" resgatei uma frase que há muito tempo não lembrava : "temos que aprender a deixar as coisas passarem". Percebi que sou uma fracasso nessa questão. Minha amiga maravilhosa que argumentava sobre isso estava evoluindo nesse aspecto e deu muita vontade de pegar carona e fazer o mesmo caminho.

Ser livre assusta. Não estou falando de liberdade de ir e vir, do compromisso com um grande amor ou daquele telefonema para dizer : pessoas de casa estou viva, mas falo do espaço livre na cabeça e no coração para o novo mostrar sua carinha. Por que é tão difícil simplesmente deixar passar aquela pessoa que você entregou todas as fichas e um belo dia percebeu que a roleta havia parado no vinte e quatro vermelho enquanto todas as suas apostas estavam no sessenta e nove preto ? Por que é tão improvável deixar passar aquela proposta de emprego que na hora não parecia tão interessante assim e meses depois você percebeu que perdeu um grande chance ? Por que ainda é mais difícil deixar passar aquele relacionamento que não deu certo e hoje a outra pessoa vive feliz da vida com outro alguém ? Medo.

Interessante como o pretérito é uma maneira de conjugação perfeita e ideal. Mais perfeito ainda é o futuro do pretérito. Sempre aquela pessoa que não foi poderia ter sido o grande amor da sua vida. Aquele abraço que você poderia ter dado e não deu é o maior sinônimo de carinho que você conhece. Aquele prato que você dispensou e não comeu seria sua grande referência de gastronomia francesa. Ah... particulamente o futuro do pretérito é o tempo verbal do talvez. Talvez tivesse dado certo. Talvez fosse. Talvez se eu. Talvez se nada.

O não deixar passar é maravilhoso para os poetas e para os autores. O não deixar passar é o tema prefirido dos enredos, dos romances. As letras de músicas são mais bonitas porque as pessoas não deixam passar. O que seria das histórias de amor se a gente deixasse tudo passar ? Deixar passar. Passar junto.

Meu vovô já dizia que sou "capa tosta", ou seja, cabeça dura. Admito. Cabeção duro, mesmo. Vou começar a deixar passar ? Não, ou melhor, vou passar junto com tudo que não me faz bem. Mas devo admitir que as grandes lembranças da minha vida só existem, pois ainda não deixei passar muita coisa. Capa tosta. Queria ser poeta. A vida é novela. Todo mundo é ator. Vamos escolher o melhor enredo. Pega um instrumento para você. A champagne é por minha conta.

Thursday, October 20, 2005

DIAS A MAIS

Cada dia que passa compreendo que tudo que é considerado insolúvel cai por terra. É incrível as notícias que recebemos. Em tempos de Marcos Valério e CPI dos Correios, absolutamente nada é impossível.

Quando criança colocava alguns assuntos dentro da redoma da rosa do pequeno príncipe e considerava aquilo intocável. E assim tudo caminhou tranquilamente pelo fantástico universo de Neverland onde vivia. Mas quando a gente cresce começa a perceber que o manual de instruções da vida não existe, ou se um dia existiu, alguém tratou de rasgar e queimar cada pedacinho. E isso fiz questão de absorver muito bem na teoria mas na prática é meio diferente.

Inadequada. É assim que me sinto, ás vezes, diante de algumas situações. Tenho aversão a pessoas mal educadas, mal resolvidas, mal humoradas... Melhor dizendo adoraria não colecionar esses adjetivos, mas muitas vezes, sou extremamente sem educação com a coitada da menina do telemarketing de alguma operadora X, também sou muito mal resolvida com milhares de questões, meio aquele lance de ser ou não ser, de casar ou comprar uma bicicleta, sabe ? o mal humor, então... isso habita meu ser diariamente até as dez da manhã. Tudo bem sou contraditória mas quem não é ?

Tinha plena certeza que no dia que fossem apagadas as velinhas dos meus vinte e poucos anos todas as minhas angústias fossem junto. Vai ver que é por isso que desde os dezoito aninhos não comemoro aniversário com bolo e vela. Cada dia que passa mais turbilhões se instalam dentro de mim e mais incertezas coleciono. Talvez a tal maturidade não tenha chego ainda. Não casei. Não pintei quadros. Não leio tantos livros quanto compro mas releio os livros do Nick Hornby. Essa identificação com o autor de Alta Fidelidade também é um sinal que não atingi a maturidade do autor de Metamorfose. Se bem que a minha geração é assim. Não teremos história para contar, pois ainda estamos vivendo a história dos outros. Estamos reverenciando os anos 80 enquanto formamos uma interrogação no nosso tempo.

Sonhei com uma vida diferente da que tenho hoje. O melhor de tudo isso é que era um sonho muito concreto pois parecia que era uma certeza que ia viver daquela maneira. Não imaginava que ainda estaria dividida entre os dias cinzento na agência e as noites mal dormidas de pura diversão. Entre o desejo pelo vestido da última coleção da Adriana Barra e o novo All Star sem cadarço. Sempre optando por alguma coisa. Sempre abrindo mão de tantas outras. Sempre pesando cada uma delas. Sensatez. Insensatez.

"Tudo que é sólido se desmancha no ar" Karl Marx

Monday, October 17, 2005

STANISLAVSKY

" Todo Carnaval tem seu fim " ( Marcelo Camelo)

Acordei com a melodia já um tanto desgastada do TIM Festival. É... sou dessas
pessoas bizarras que coloca uma musiquinha idiota como toque no celular e depois
fica reclamando que não aguenta mais ouvir o tal som.

Além de ser bizarra, sou uma bizarra repetitiva. Para comprovar ainda mais esse
conceito, entrei no carro e apertei o botão repeat do rádio em uma canção que acaba
me levando muito, mas muito longe, todas as vezes que toca e era disso que estava
precisando, ficar longe do meu personagem diário e quem sabe ir para algum lugar onde
houvesse "uma existência superiormente interessante". Fechei os vidros. Abri a alma.

Vontade de perder o rumo e seguir adiante. Queria procurar um colorido mas bem longe
das cores que encontro nos layouts que aprovo todos os dias. A tonalidade que procurava
naquele momento tinha que ter o sabor de brigadeiro da casa de vovó. O som
de porta abrindo quando estamos esperando alguém que amamos muito e quase nunca aparece.
O cheiro daquele perfume que você quer sentir de novo e nunca mais cruzou com ele por aí.

Deu vontade de ser atriz. Sim, os palcos. Aquele tablado de madeira que tanto amo e que o
mais perto que chego é quando sento na primeira fila do teatro. Cazuza disse que só as mães
são felizes, contrario o poeta e afirmo : só os atores são felizes. A tal "existência superiormente
interessante" é a vida sob a ótica de Stanislavsky. É a vida de ser o que quiser até a próxima
sessão. Até a próxima abertura das cortinas. Até o próximo bis. Quando fui a primeira aula de teatro tive a impressão de que tudo é tão mágico que se deseja MERDA para todo mundo. Até a MERDA é mágica. No teatro todo mundo ensaia o que quiser e o melhor de tudo, vive aquilo.

Ah, as cores. Encontrei a cor verde no semáforo logo a frente. Não era o verde da minha escola,
da Mangueira, anunciando que entraria na avenida. Era um tom mais sem graça, que dizia : Samantha, pode seguir em frente que você está chegando na agência. Ah, tudo bem. Entrei na garagem. Desligueio rádio e comecei a ouvir Todo Carnaval tem seu fim. Salve, Marcelo Camelo. Salve a segunda-feira!

Friday, October 14, 2005

A lei do ponto de vista

Já achei que fosse um grande amor e não passou de dois encontros. Sempre guardo a parte mais gostosa e recheada do bolo para o fim e o fim quase sempre é alguém pedindo a minha última mordida. A minha nona que é a grande responsável por tudo que sei hoje foi embora e não me deu oportunidade de dizer um tchau decente. O jeans que sempre deixei para ocasiões "especiais" teve que ser cortado no hospital quando quebrei a perna. Esperei várias vezes um ano inteiro tirar férias e deixei aquela viagem deliciosa para Fernando de Noronha no mês mais chuvoso do ano.

Azar, o meu...

Uma das semanas mais felizes da minha vida foi exatamente a última que passei com a vovó. Os dois encontros com o possível grande amor da minha vida me ensinaram mais sobre ser humano do que esses vinte e dois aninhos bem vividos. Sempre que dou o último pedaço do meu todo recheado bolo prefirido, o sorriso de quem recebe me dá mais prazer do que o bolo inteirinho só para mim. A calça jeans cortada virou o shorts prefirido do meu final de semana. A viagem para Fernando de Noronha, graças a chuva, possibilitou minha experiência de mergulho mais intensa.

Sorte, a minha...

“Ninguém sabe até onde vai sua resistência. Dizem que Deus dá o cobertor conforme o frio, mas ninguém sabe o quanto pode agüentar desse frio. Se morrer de frio está por um triz ou se ainda faltam uns dias, ou horas, ou anos; a verdade é que ninguém sabe porra nenhuma sobre coisa alguma. Este é o nosso mistério. E sorte”. (Fernanda Young)

Wednesday, October 12, 2005

CASTELO X LOFT

"Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir
Se nós, nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir"


Adriana Calcanhoto pulou da case e foi direto para o play. A gente diz que perdeu o chão e que não encontra as palavras, ora mas que besteira imensa, você olha para baixo e percebe que o chão está ali no mesmo lugar onde sempre esteve e que as palavras continuam perdidas por aí nas mesas dos bares, nos sussuros dos amantes, nos pátios de colégios e nas prateleiras da livrarias. Naqueles segundos que poderiam ser confudidos com séculos facilmente, tudo faz sentindo, cada acorde triste foi composto para você, cada cena triste de filme vem ao seu encontro. A gente é capaz de dizer que viu imensas latas de tinta cinza pela cidade e que toda a população foi voluntária para descolorir as paredes do mundo.

A gente se sente ridículo. Os outros acham a gente ridículo mas só quem já passou por uma boa dor lombar ocasionada por dois pés de outra pessoa está entendendo o que essas palavrinhas tentam expressar. O telefone tocou nessa pré-noite de pós-feriado e a voz quase sufocada do outro lado tentava traduzir a dor que aquela alma que dias atrás tinha a mais louca alegria, no dia de hoje fazia da agonia a sua profissão.

Meus ouvidos estavam ali executando sua função de calmamente ouvir sílaba a sílaba para depois um outro orgão poder trabalhar dentro do seu caminho vital e poder balbuciar. Mas meu coração foi longe e não pegou atalhos, correu pelo campo da memória e cruzou avenidas do tempo, do choro, do abandono, do querer e não poder, do quase não sentir e em questão de segundos estava lá eu mais completa do que quando aquele celular tocou. Agradeci.

Não se pode ser completo quando não se sofreu por amor, ainda. Jamais reconheceria o valor das coisas mais importantes que a vida me deu de presente se não fosse as lágrimas que derramei, o desamor que sofri e o brilho no olhar que jurei ter sido o último. Começar de novo. Provavelmente a gente se pergunte com que pernas seguir, mas a resposta é a mais óbvia possível e você só pode ir em frente com as suas próprias pernas. Começar de novo e nesse recomeço é só contar consigo mesmo. Reerguer os castelos nem sempre é fácil mas a melhor maneira é construir um loft que só caiba você, pois quando você tem plena consciência do seu espaço até pensa em apertar para dividir com alguém.

Tuesday, October 11, 2005

TRATADOS DA ARTE DAS LEMBRANÇAS



"O Lobo da Estepe tinha, portanto, duas naturezas, uma de homem e outra
de lobo; tal era seu destino, e nem por isso tão singular e raro." (Hermann Hesse)

Mochila azul nas costas e Hermann Hesse nas mãos. Assim a primeira lembrança invadiu
a minha tarde ensolarada daquele dolorido mês de março. Infelizmente no ano de 2003 o
Carnaval escolheu a passarela de março para desfilar, portanto não tive escolha, as lágrimas
e a dor do que será que estou fazendo da minha vida, atravessaram a avenida ao meu lado.

A janela do MSN piscou e alguém do outro lado tinha escolhido justamente o Carnaval para
enfrentar as paredes nada coloridas do centro cirúrgico. Mochila azul nas costas e Hermann Hesse nas mãos atravessaram novamente um fim de tarde com sol triste. Posso ligar a você para saber como foi a cirurgia ? Perguntava o meu nick melancólico a um outro nick que não devia estar tão diferente.

Com lágrimas ou sem lágrimas, pois os soluços de vodka não me deixam lembrar precisamente, gritei com toda a minha força pela Gaviões que entrou tão linda na avenida quanto a vista do mar de Angra que vi na sequência do sábado de Carnaval. Mochila azul nas costas e Hermann Hesse nas mãos vieram junto com o som das ondas que ouvia daquele barco que não era meu. Oi aqui é a Samantha liguei para saber como foi a cirúrgia e como você está. Espero que tenha ocorrido tudo bem. Um beijo. Assim foi o meu recado naquela nada simpatica caixa postal. Medo. Coisa de gente freak. Voltando para o sol e mudando de posição como sugeriu minha companheira de Carnaval frustado, Maricota, capotei e permaneci bem longe do meu celular pois metaforizando permanecendo longe dele conseguia fugir do contato com os meus próprios sentimentos.

Não quero contar o fim dessa história. Lembranças como Mochila azul nas costas e Hermann Hesse nas mãos, aconselho a todos terem um dia na vida. O que posso dizer e você, por favor, não confunda com desfecho é que a apuração das escolas de samba passou, a Gaviões foi campeão mais um ano como não poderia ser diferente, troquei a vodka por uma boa taça de Velvet, troquei a taça de Velvet por uma boa taça de vinho branco, coloquei sandália preta de tira na perna, fui para a guerra ver o que queria da vida, me permiti errar e confesso que durante todo aquele ano Mochila azul nas costas e Hermann Hesse nas mãos não foi apenas uma lembrança e ainda não é. Pois a lembrança tem seus dois lados, assim como o homem, assim como o lobo.