Thursday, May 24, 2007

Esquinas

Tinha esquina demais naquela cidade e era natural se perder em cada uma. É incrível como sente uma estranha excitação ao se confudir e não saber para onde ir. O mundo é cheio de possibilidades e cabe a cada ser humano escolher uma e seguir adiante. Vontade de rir demais. Rir até perder as forças. Seria tão simples se fosse mesmo assim, escolher um caminho e seguir por ele até ver onde vai dar. Essa gente não deve mesmo saber o que é atalho e encruzilhadas. É claro que ele queria ser como esse povo de gravata com ar de empresário bem sucedido. Cara de quem conhece o mundo em linha reta. Pra falar a verdade, o coitado, só conseguia ter cara de perdido deslumbrado com all star vermelho nos pés e brilho de cinema nos olhos. Ele adorava teatro sobretudo o cheiro do palco. Quando fazia aula de tablado adorava os exercícios que o colocassem em contato com o chão. Adorava rolar o corpo sobre aquela madeira. Era energizante. Naquele momento ele sentia-se vivo e pronto para ir atrás de qualquer coisa. Tá aí um problema, esse tal qualquer. Ele não sabia o que podia ser essa coisa e aí lembrava que para quem não sabe onde está indo qualquer caminho serve. E lá estava a criatura em mais uma esquina. Pronto a se perder.

Um sábado a noite ele sonhou que tudo podia ser diferente. Acendeu um cigarro para se inspirar como sempre fazia nas situações difíceis, ou seja, todos os momentos. Colocou uma roupa qualquer e passou aquele perfume. Cabelos molhados e vento na cara como talvez alguém tenha cantado em alguma canção dessas. Nesse mesmo momento ele sentiu que o mundo estava emitindo uma vibração diferente. Entrou em um boteco meio sujo para aqueles rapazes de gravata do mundo em linha reta. Três ou quatro goles e a garrafa de cerveja estava vazia. Olhou para o lado e se encantou com uns desenhos que pareciam saltar de um cartaz da parede e achou graça no cão peludo e sujo que estava bêbado na porta. Perguntou para o "nêgo" ao lado se por ali passava o ônibus 666 e escutou algum murmúrio estranho. Nem ligou. Quase sempre era assim, não era do tipo que escutava realmente o que as pessoas diziam. Ele ouvia o que cabia no seu universo e isso não era pouco. Lá estava ele sentado no circular com destino ao submundo. Tudo encantava. Os cheiros, as luzes, os sons e os movimentos. Desceu. Esbarrou numa garota que pensava que sua vida era um filme. Na verdade a vida dela era apenas um desenho animado sem graça com traços retos. Olharam-se mas não se viram. Ele se encantou com a esquina, como sempre. Perderam-se. Cada um em um pensamento quase feliz. Suspiros. Cadê a vibração diferente que o mundo estava emitindo ? Não existia.

Ele sentou em um canto imundo. Filosofou sozinho sobre aquela angústia. Passos em sua direção. Tumulto. A sua volta formou-se um pequeno grupo de gente com a mesma expressão. Rostos angustiados com marcas de aflição. Ele não estava sozinho nessa e isso era a única diferença daquele sábado a noite. Tudo bem em relação a isso, pois ele não sofria, tinha acostumado a ser só. As pessoas ao redor não falavam apenas entreolhavam-se. Mas sentiam-se cúmplices mesmo sem saber o nome da dor que cada um carregava. A garota novamente surgiu com um pequeno guardanapo na mão e leu em voz alta : "Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra." Sentou-se. Uma voz sussurou : Isso é Caio, não ? Alguns concordaram. Todos compartilharam. Alguém lembrou que todos ali eram muito jovens para estarem apenas perdidos. Então já que o contexto era de perda seria melhor perderem-se dançando rock até cair. Alguns concordaram. Todos compartilharam. Até que um perguntou : mas onde ? E ele apenas respondeu : Ah, em alguma esquina, né ? Alguns concordaram. Todos compartilharam.

Tuesday, May 22, 2007

RECADO DA ROTINA

Ela acorda e olha ao redor. Despertador, televisão e uma pilha de livros ao lado da cama compõem o cenário. Conta até dez para ver se é verdade toda aquela merda. Suspira e tenta fechar os olhos novamente. Não consegue. Chora baixinho. Lembra do amor que tem e também de todos os outros que gostaria de ter tido. O pensamento pára em um alguém que teve apenas duas vezes. Chora um pouco mais alto. Pensa novamente nas promessas que escutou naquelas duas vezes. Chora um choro seco. Não tem mais lágrimas para aquela dor que a acompanha há mais de dois anos. Pega o celular que está ao lado da cama e não encontra nenhuma mensagem a não ser a do banco informando seu saldo negativo. Despertador de novo. É hora de tentar mexer ao menos as pernas para outra posição mais perto do chão. Cobre a cabeça com o edredom e tenta não pensar em nada. Descobre isso ser o mais difícil e pensa que nunca pode não pensar em nada. Vira-se e cai da cama. Mais um tombo entre tantos outros que anda se acostumando tomar.

Olha para aquela cena e dá uma risadinha cínica...

Depois do ensaio de não querer viver sai pela porta morrendo por dentro. Faz tudo no automático. Abre a porta do carro e sente o cheiro da cadela que não é mais sua. Liga o som e não se emociona com a música. Parece que ela está adormecida no meio da vida. Atende ao telefone depois do meio dia com a mesma voz que atenderia ás seis e quarenta e cinco da manhã. No começo da tarde manda alguém se fuder para lembrar que ainda consegue gritar. Marca um encontro para o fim do dia e vai sem nenhuma expectativa. Trepa um sexo morno até o começo da madrugada. Erra o nome ao se despedir. Resolve ir para casa. Liga o som e sente cada toque da melodia. Pega o telefone e escreve uma mensagem de texto completamente sem sentido. Lembra da comunidade do Orkut que diz “adoro receber mensagens de madrugada". Troca meia dúzia de recados com alguém. Dá risada sozinha. Encontra aquele bombom no carro e devora em segundos. Abre a porta de casa. Entra no seu quarto. Deita na cama e agradece a um Deus qualquer por cada segundo. Agora já está no seu mundo. Folheia Schopenhauer. Mais um torpedo que chega e ela morre de rir. Joga Schopenhauer longe. Agarra Clarice Lispector. Encanta-se com a possibilidade do amor. Dorme. Sonha.

Ela acorda e olha ao redor. Chora baixinho. Chora um pouco mais alto. Chora um choro seco.Olha para aquela cena e dá uma risadinha cínica...